segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O PÚBLICO, O GRATUITO E A QUALIDADE

Marcio Both

Professor do Colegiado do Curso de História da UNIOESTE

Nos últimos anos, muito se tem falado no tema da “Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade”, contudo, os debates para definir o que realmente seja a realização desta meta encontram diversas interpretações. Alguns relativizam o que seja o “público” e especialmente o “gratuito” e outros defendem que a “qualidade” é um fenômeno diametralmente oposto ao “público”, portanto, são defensores convictos de que a efetivação da “qualidade” passa pelo privado e/ou pela mercantilização da educação, da pesquisa e do ensino.

Diante disto, aproveito este espaço para expressar minha opinião a respeito do que seja a tal “UNIVERSIDADE PÚBLICA, GRATUITA E DE QUALIDADE”, já que, como postula Hannah Arendt, só há política quando as pessoas podem expressar suas opiniões a respeito do mundo, da sociedade e das coisas do mundo. Contudo, quando se trata de política, tais opiniões, ainda do ponto de vista de Arendt, devem ter como uma de suas metas a preservação do mundo como local onde a humanidade habita e se realiza. Este, em termos arendtianos, seria o grande sentido da política. Não só, mas a educação também é um meio que deve ser manejado na perspectiva da preservação do mundo, pois, nas palavras de Arendt:

a educação é ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum (ARENDT, 2001: 247).

Nestes termos, ensino público, gratuito e de qualidade, do meu ponto de vista, significa, em primeira instância, a “preservação do mundo” e a construção de um mundo em comum, sendo que para isto acontecer devemos ter em conta que a mercantilização do saber, do ensino e da educação em nada contribuem para realização desta meta. Por seu turno, a efetivação de tal objetivo – a preservação do mundo – passa pelo envolvimento das pessoas (discentes, docentes, funcionários, comunidade) que são responsáveis por dar vida aos lugares de educação, sejam eles escolas, universidades, institutos, etc..., pois “qualquer pessoa que se recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças, e é preciso proibi-la de tomar parte em sua educação” (ARENDT, 2001: 239). Assim, universidade pública, gratuita e de qualidade também significa assumir esta tal “responsabilidade coletiva pelo mundo” de que trata Arendt. Por sua vez, o mercado, sinto informar aos apologizadores da eficiência do privado, não tem condições e não quer se responsabilizar coletivamente pelo mundo!

Universidade pública, gratuita e de qualidade também significa, em termos mais específicos, ser administrada de forma eficiente, mas tal eficiência deve ter por suporte primeiro a grande meta do ensino e da educação acima apresentados. Desta forma, não basta infraestrutura se não temos alunos(as), professores(as) e funcionários(as) para utilizá-los, sendo que o contrário também é verdadeiro. Não é suficiente um grande número de professores(as) e funcionários(a) se não há possibilidades de qualificação, assim, como não são adequados o ensino pelo ensino, a pesquisa pela pesquisa e a extensão pela extensão. Logo, uma boa administração universitária deve buscar um equilíbrio à equação. Devemos admitir que isto não é fácil devido ao descaso por parte do Estado e seus agentes no que diz respeito a importância da educação. Entretanto, lutar para que o equilíbrio aconteça deve ser uma das metas principais da administração universitária.

Universidade pública, gratuita e de qualidade também significa uma universidade menos burocratizada e, além disso, uma universidade que dê condições para que os estudantes permaneçam o maior tempo possível de sua formação dedicando-se aos estudos. Daí a importância da existência de uma política de bolsas que atenda o maior número possível de alunos(as), já que atender a todos(as), diante da situação atual da educação no Brasil, ainda é um objetivo a ser alcançado.

Por fim e para não me delongar muito, precisamos aproveitar este momento em que serão definidos os futuros administradores(as) da NOSSA universidade para discutir tais questões e não para jogar palavras ao vento e estabelecer promessas. Em outras palavras, este é momento de fazermos POLÍTICA e a política, ou melhor, a boa política não descarta a promessa, mas deve ter por suporte projetos, já que a promessa da política, sem grandes cascatas, é a preservação do mundo.

REFERÊNCIA:

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001.

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